Na vida as coisas não são nem só pretas nem só brancas.
Grosso modo são cinzentas. E uma absoluta confusão.
Kyss Mig é
isso. É um filme sobre as inesperadas confusões que a vida nos apresenta,
sobre a forma como nos posicionamos perante elas e as resolvemos e de
como as nossas decisões – ou a sua ausência - afectam, com maior ou menor
dano, todos à nossa volta.
É um filme
muito honesto e sem papas na língua. É uma história de amor “real” com que nos
podemos identificar, que não é absolutamente cor-de-rosa, que provoca mágoa e
tem as suas perdas mas também os seus ganhos.
O facto de
ser um filme gay ganha importância sobretudo porque, de todos os filmes de
temática lésbica que vi até hoje é o que se destaca na forma como a “questão” é
tratada. Não com o cunho da comédia associado, ou da tragédia, ou do falso
moralismo mas com absoluta normalidade. É um filme Sueco e creio estar tudo dito.
Para além
disso tudo, a fotografia do filme é uma personagem por direito próprio. Tão
capaz, tão bem conseguida, num registo emocional tão perfeito que elimina em
algumas cenas – e a realizadora sabia disso – a necessidade de diálogos.
Alie-se a uma boa fotografia uma excelente interpretação e temos um filme a
raiar a perfeição.
Na véspera de te ires embora começa a formar-se sobre a
minha cabeça uma leve nuvem negra. À medida que os dias avançam a nuvem começa
a tomar contornos capazes de preocupar a Protecção Civil e de a levar a
decretar estado vermelho em todos os distritos de Portugal continental e ilhas.
Escurece a nuvem. Torna-se preta demónio. Expele raios e coriscos como
torrentes de lava. Desce sobre a minha cabeça, dela só sobressaindo as minhas
orelhas e a ponta do meu nariz. Transformo-me em nuvem e transito pelos dias
numa espécie de transe auto-infligido. Se fizer de conta que o tempo não existe
não o sinto passar e acumular em folhas brancas de silêncio.
Quando tu não estás só existe silêncio. Só existo pela
metade. Finjo a docilidade e a candura que dizem serem minha característica para
que a ordem do meu mundo não se quebre mas é complicado resistir à vontade hercúlea
de gritar com toda a gente. Quando tu não estás só me apetece gritar com as
pessoas e pareço ficar cega às qualidades, só lhes vejo defeitos. E não me
apetece sorrir. E tudo em mim é um rastilho de mau humor que qualquer faísca,
por mínima que seja, o pode fazer acender rumo a um resultado imprevisível. E não
gosto de mim assim, tão no limite da tolerância.
Quando tu não estás o cansaço é mais incisivo. Custa mais a
dormir. A cama é, ao mesmo tempo, demasiado grande e demasiado pequena. Todas
as almofadas não chegam e nenhuma serve. Falta o teu corpo, a tua pele, o
mandares-me calar porque ressono a toda a bolina. O acordar e chegar-me a ti
para a melhor parte do sono.
E risco no calendário todas as provas da tua ausência mas,
ainda assim, os dias somam-se e eu contabilizo. E encolho-me. Aquieto-me.
Fundo-me com a poeira ao canto dos móveis e almejo ficar aí onde ninguém me vê
nem eu tenho percepção do mundo.
Depois,
na véspera do teu regresso, um subtil anticiclone faz dissipar a nuvem negra e a
cor regressa aos meus olhos. E consigo ver-te novamente. E ver-me. E ver-nos. Só
então recomeço.
Tenho a clara sensação de que algo de muito macabro se passa neste País e de que, lentamente e serenamente, como dóceis ovelhas, nos deixamos guiar de regresso à Idade das Trevas.
O que eu queria mesmo era recuperar a sensação de que o tempo é uma espiral infinita e delicada e em plena consciência de mim, sem a pressa desmedida do quotidiano - bebendo da vida o silêncio -, pousar a minha fronte na tua nuca e ficar em ti, onde tudo é absoluto e onde não existe ocaso. Apenas a suave fluidez do agora.
E ainda que plena toda a lógica,
ainda que certa a realidade – constatada e assistida – viver a ausência é como
tentar agarrar o fio da ideia que contém todo o entendimento e deixa-lo sempre
escapar por entre os dedos.