A questão que mais me assalta e que já me
assaltou aquando da leitura do primeiro volume de diários de Susan Sontag, é o
que passará pela cabeça do filho – a quem coube a tarefa de os editar – ao confrontar-se
com esta versão, às vezes tão despida, da sua mãe. São páginas cheias de
anotações de carácter académico – muitas das quais quase indecifráveis para mim
– mas também de considerações pessoais, dolorosas, profundamente humanas e que
revelam uma pessoa com uma consciência muito acutilante das suas próprias
falhas, muito céptica não da sua capacidade de amar mas de ser amada, tão presa
aos escombros da infelicidade que lhe provocavam as mulheres com quem se
relacionava e de quem, de uma forma ou de outra, nunca se sentia à altura.
Ao mesmo tempo que não invejo a tarefa do filho
de Susan Sontag, invejo-o. Para um filho, compreender um pai é a tarefa a que
se dedica com mais resistência, sobretudo porque essa intenção – a de perceber
e, acto contínuo, perdoar – tem de partir da aceitação das suas próprias falhas
e dos seus próprios erros e da capacidade de acolher o outro com todas as suas
fragilidades e incongruências. O que, naturalmente, não é fácil. Sobretudo
quando levámos uma vida inteira a acreditar que aquilo que víamos era aquilo
que eles realmente eram.