Boas notícias para quem leu “O Preço do Sal”. Para mim,
que vou a meio, também são. (Consta que a Internet anda aos saltos porque a Lady Blanchet respondeu que took a walk on the real wild side "many times" quando lhe perguntaram se este papel era a primeira incursão nas lides LGBT.) So what?
No Brasil andam a espumar-se de raiva e ódio
por causa disto. Que bom! Que se espumem de raiva e ódio e que se esgasguem com
a sua própria estupidez. Pode ser que, por fim, vejam a luz que os resgate à
sua voluntária e negra ignorância.
E por cá também!
Uma novela é uma novela é uma novela mas, às
vezes... dá um empurrãozinho.
Há viagens que fazemos e que, para além de nos transportarem
fisicamente do ponto a para o ponto b transformam – por opção ou surpresa – a paisagem
interior do viajante. Nunca se regressa igual ao ponto de origem. A diferença
entre os extremos não se calcula apenas na distância percorrida mas naquilo
que, por fim, dista entre o que éramos à partida e o que somos à chegada. E à
chegada, aquilo que transportamos, tudo o que nos foi acrescentado e tudo o que
permitimos que – dentro de nós - fosse
mudado de sitio, já não cabe nos limites das nossas circunstâncias. Nem na memória
que tínhamos de nós e do espaço que ocupávamos.
Na vida as coisas não são nem só pretas nem só brancas.
Grosso modo são cinzentas. E uma absoluta confusão.
Kyss Mig é
isso. É um filme sobre as inesperadas confusões que a vida nos apresenta,
sobre a forma como nos posicionamos perante elas e as resolvemos e de
como as nossas decisões – ou a sua ausência - afectam, com maior ou menor
dano, todos à nossa volta.
É um filme
muito honesto e sem papas na língua. É uma história de amor “real” com que nos
podemos identificar, que não é absolutamente cor-de-rosa, que provoca mágoa e
tem as suas perdas mas também os seus ganhos.
O facto de
ser um filme gay ganha importância sobretudo porque, de todos os filmes de
temática lésbica que vi até hoje é o que se destaca na forma como a “questão” é
tratada. Não com o cunho da comédia associado, ou da tragédia, ou do falso
moralismo mas com absoluta normalidade. É um filme Sueco e creio estar tudo dito.
Para além
disso tudo, a fotografia do filme é uma personagem por direito próprio. Tão
capaz, tão bem conseguida, num registo emocional tão perfeito que elimina em
algumas cenas – e a realizadora sabia disso – a necessidade de diálogos.
Alie-se a uma boa fotografia uma excelente interpretação e temos um filme a
raiar a perfeição.