Gino Paoli - Senza Fine
Coisas que vale a pena ver, rever e guardar
Na vida as coisas não são nem só pretas nem só brancas.
Grosso modo são cinzentas. E uma absoluta confusão.
Kyss Mig é
isso. É um filme sobre as inesperadas confusões que a vida nos apresenta,
sobre a forma como nos posicionamos perante elas e as resolvemos e de
como as nossas decisões – ou a sua ausência - afectam, com maior ou menor
dano, todos à nossa volta.
É um filme
muito honesto e sem papas na língua. É uma história de amor “real” com que nos
podemos identificar, que não é absolutamente cor-de-rosa, que provoca mágoa e
tem as suas perdas mas também os seus ganhos.
O facto de
ser um filme gay ganha importância sobretudo porque, de todos os filmes de
temática lésbica que vi até hoje é o que se destaca na forma como a “questão” é
tratada. Não com o cunho da comédia associado, ou da tragédia, ou do falso
moralismo mas com absoluta normalidade. É um filme Sueco e creio estar tudo dito.
Para além
disso tudo, a fotografia do filme é uma personagem por direito próprio. Tão
capaz, tão bem conseguida, num registo emocional tão perfeito que elimina em
algumas cenas – e a realizadora sabia disso – a necessidade de diálogos.
Alie-se a uma boa fotografia uma excelente interpretação e temos um filme a
raiar a perfeição.
Of love and shadows
28 de julho de 2012
Na véspera de te ires embora começa a formar-se sobre a
minha cabeça uma leve nuvem negra. À medida que os dias avançam a nuvem começa
a tomar contornos capazes de preocupar a Protecção Civil e de a levar a
decretar estado vermelho em todos os distritos de Portugal continental e ilhas.
Escurece a nuvem. Torna-se preta demónio. Expele raios e coriscos como
torrentes de lava. Desce sobre a minha cabeça, dela só sobressaindo as minhas
orelhas e a ponta do meu nariz. Transformo-me em nuvem e transito pelos dias
numa espécie de transe auto-infligido. Se fizer de conta que o tempo não existe
não o sinto passar e acumular em folhas brancas de silêncio.
Quando tu não estás só existe silêncio. Só existo pela
metade. Finjo a docilidade e a candura que dizem serem minha característica para
que a ordem do meu mundo não se quebre mas é complicado resistir à vontade hercúlea
de gritar com toda a gente. Quando tu não estás só me apetece gritar com as
pessoas e pareço ficar cega às qualidades, só lhes vejo defeitos. E não me
apetece sorrir. E tudo em mim é um rastilho de mau humor que qualquer faísca,
por mínima que seja, o pode fazer acender rumo a um resultado imprevisível. E não
gosto de mim assim, tão no limite da tolerância.
Quando tu não estás o cansaço é mais incisivo. Custa mais a
dormir. A cama é, ao mesmo tempo, demasiado grande e demasiado pequena. Todas
as almofadas não chegam e nenhuma serve. Falta o teu corpo, a tua pele, o
mandares-me calar porque ressono a toda a bolina. O acordar e chegar-me a ti
para a melhor parte do sono.
E risco no calendário todas as provas da tua ausência mas,
ainda assim, os dias somam-se e eu contabilizo. E encolho-me. Aquieto-me.
Fundo-me com a poeira ao canto dos móveis e almejo ficar aí onde ninguém me vê
nem eu tenho percepção do mundo.
Tenho dito!
8 de julho de 2012
Tenho a clara sensação de que algo de muito macabro se passa neste País e de que, lentamente e serenamente, como dóceis ovelhas, nos deixamos guiar de regresso à Idade das Trevas.
E com beijos devorar-te a alma
6 de julho de 2012
O que eu queria mesmo era recuperar a sensação de que o tempo é uma espiral infinita e delicada e em plena consciência de mim, sem a pressa desmedida do quotidiano - bebendo da vida o silêncio -, pousar a minha fronte na tua nuca e ficar em ti, onde tudo é absoluto e onde não existe ocaso. Apenas a suave fluidez do agora.
E é de espanto a ausência
E ainda que plena toda a lógica,
ainda que certa a realidade – constatada e assistida – viver a ausência é como
tentar agarrar o fio da ideia que contém todo o entendimento e deixa-lo sempre
escapar por entre os dedos.
Do meu caracter
27 de maio de 2012
Para aí três vezes por dia dá-me vontade de rumar em direcção a uma vida com mais sentido, ainda que o conceito de “sentido” nem sempre seja fácil de definir. Sinto falta do contemplar, do quieto da observação e dos acordes que, cá por dentro, esse exercício fazia dedilhar. Sinto falta de reconhecer a beleza nas pessoas, de as olhar sem preconceitos nem juízos de valor grosso modo rudes e absolutamente desnecessários. Sinto falta do cinzel que sempre tinha à mão na intenção de me moldar, acertar, num carácter mais justo e sereno. Mais nobre. Sinto falta do silêncio.
Não sei se nenhuma substância se espreme de tudo quanto é absurdo na rotina - ultimamente não lhe tenho procurado o tutano - só sei que a rispidez dos nossos rostos, os nossos olhos alerta, os nossos sorrisos forçados estão nos antípodas das imagens de contida satisfação com que ainda sonho.
Não sei se nenhuma substância se espreme de tudo quanto é absurdo na rotina - ultimamente não lhe tenho procurado o tutano - só sei que a rispidez dos nossos rostos, os nossos olhos alerta, os nossos sorrisos forçados estão nos antípodas das imagens de contida satisfação com que ainda sonho.
The Soft Voices Die
24 de maio de 2012
Ao fim de tanto tempo continua-me a parecer ontem. E na minha cabeça como talvez, também, no meu coração; o tempo congelou entre o momento em que pestanejando deixo de ter ver e o momento em que, voltando a pestanejar, ainda aqui estás.
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
20 de maio de 2012
18 de maio de 2012
Há cerca de cinco anos este filme fez-me começar um blogue
que, de certa forma… não, que mudou a minha vida de todas as formas. Iniciei-o
com a premissa de que era hora de despertar, de que era urgente o despertar.
O caminho que a vida me fazia percorrer naquele momento
sacudiu-me violentamente do sono que me entorpecia obrigando-me a enfrentar o
deserto que sobra ao cessar da existência. Ao mesmo tempo ofereceu-me a vida na
sua expressão mais doce e crua. Ofereceu-me caminho novo para andar e respostas
acertadas às perguntas que por fim começava a fazer.
Ofereceu-me um caminho com pedras pontiagudas que magoaram
os pés e espinhos afiados que rasgaram a carne mas, apesar de tudo, imensamente
doce. E merecedor da mais acérrima luta.
Cinco anos depois há outros aspectos da vida sobre os quais é
preciso manter a vigília. Perante os quais não me posso permitir vacilar. Se
existe arte e vontade pois então que a arte seja mais do que mero desejo. Que
seja expressão. E reflexão. E que com esta premissa também o que em mim é o
almejado prumo não se desvaneça no horizonte sem que consiga alcança-lo.



