Apparat
16 de julho de 2013
Ouvir Apparat será sempre uma experiência
embrulhada em emoções contraditórias. Está impregnado de ti que mo deste a
conhecer e impregnado de perda porque foi a banda sonora dos dias que precederam
a partida da minha mãe. Talvez por isso signifique para mim a vida e os seus
extremos e aquilo que de entremeio se lhe queda e que sou eu.
Parece que esta altura o pede sempre para
ouvir. Só um pouquinho de cada vez. Todos os anos se inicia em mim esta espécie de contagem
decrescente e já não tento contraria-la. Faz parte. É como se, tendo presente
os dias e os momentos, pudesse tocar-me o ombro, o meu ombro de então, e me
pudesse dizer baixinho ao ouvido: “Tem calma. Vais conseguir sobreviver a isto”.
Farta de electrodomésticos com mau génio
13 de julho de 2013
O update semanal indica que a máquina de
lavar roupa já voltou a funcionar às mil maravilhas. Os homens das obras é que,
de tanto a tirarem e porem no sítio, acabaram por ligar mal os tubos.
Hoje, por coincidência também de folga – as minhas
folgas parecem estar condenadas – acordei, tardííííííssimo, para uma arca
congeladora tão cheia de gelo que não fechava. Tudo bem que a culpa foi nossa
que a deixámos mal fechada mas tenham dó. Não há nada mais estúpido na vida do
que estar de joelhos, com o secador de cabelo em riste, investindo contra
blocos de gelo na tentativa desesperada daquilo derreter mais depressa...
Na próxima folga vou para um Hotel...
... e agora vou ter com ela.
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Paul Theroux
“Disse-me um Adivinho” foi dos livros mais
divertidos e instrutivos que li nos últimos anos. Agora faço a viagem ao
contrário usando outros olhos para me guiarem. Tenho a impressão de que a aventura vai ser, também, para não mais esquecer.
A Gaiola Dourada
Será para ter medo? Muito medo? Mas tem a Rita Blanco...
por isso, se calhar... buenas noches!
Da condição feminina
Também a ler “Teresa e Isabel” de Violette
Leduc – a tal novela tanto tempo censurada e tão tardiamente publicada – ocorreu-me
ir ver em que ano foi publicado “Sexus” de Henry Miller. E qual o meu espanto –
ou não – quando a wikipedia me revela que foi publicado em Paris –
espantemo-nos com a cidade – em 1949. E espantemo-nos com a cidade porque,
cinco anos mais tarde, no mesmo local das luzes e da modernidade, Violette Leduc vê
recusada a publicação da sua novela. O porquê já sabemos. É um porquê que
continua com amarras bem presas nos dias de hoje.
Leduc era mulher. Primeiro ponto. Bastaria
apenas este.
Segundo ponto, Leduc era mulher e era
lésbica.
Terceiro ponto, Leduc era mulher, lésbica e falava
sem pudor e em pormenor da sexualidade e sensualidade femininas.
Quarto ponto, Leduc exultava o prazer
feminino. Como podia tal?
Quinto ponto – que deve ter feito muita
confusão na cabeça daqueles homens – Leduc exultava o prazer da mulher às mãos
de outra mulher.
Sexto ponto, Leduc falava da sua própria
experiência. A definitiva ousadia.
De Henry Miller diz-se que não há escritor
mais honesto. Talvez. Não sei. Tinha vinte anos e consegui ler metade de “Sexus”
– nunca mais lhe peguei. Talvez fosse o escritor mais honesto mas mesmo que não
fosse era meritório desse elogio pelo simples facto de ser homem e falar
despudoradamente do seu pénis murcho incapaz de perform – entre homens não há honestidade mais crua. E não está mal, não é o seu
talento que está em causa mas a forma como se fazia – e ainda se faz – a escolha
do que é bom e do que não vale a pena. Num mundo fálico, o editorial também, é
óbvio sobre quem recai a escolha e o escárnio com que se deita ao lixo o que,
para eles, não presta. Para com a mulher continuam a ter certa condescendência.
Sou levada a pensar que a novela de Leduc não
foi tanto censurada pelo seu conteúdo e pelas suas descrições mas por receio de
que a sua revelação levasse à libertação da consciência da mulher e à
reclamação dos seus direitos como ser sexual. É uma bela teoria da conspiração,
não?
Não sou feminista ferrenha mas tendo a ser
cada vez mais feminista. Sou-o por observação – salvo raras excepções - do
comportamento masculino no meu local de trabalho e pelo comportamento masculino
de uma forma geral. Sou-o também pela observação de um determinado
comportamento feminino mas isso são outros quinhentos. A verdade é que isso da igualdade, volta e meia, faz-me rir.
Do Policial Nórdido
Stieg Larsson colocou a fasquia muito alta. E
é chato quando queremos encontrar substitutos e não há quem lhe chegue aos
calcanhares.
Já li Camila Lackberg e Lars Kepler mas não
me convenceram. Agora estou a terminar Karin Fossum, a dita senhora do crime
Norueguês. Ainda não decidi se gosto ou não. É um romance estranho, o que me
leva a concluir que os noruegueses são estranhos, mas é, ainda assim, um
romance que está noutra dimensão; muito superior a Lackberg e a Kepler.
É um policial de ambientes - desolados – que
nos faz entranhar debaixo da pele das personagens e nos leva, contra a nossa
vontade, a criar empatia com elas; como se nos reconhecesemos um pouco iguais
no dano que a vida nos provocou e na constatação do facto de que a resiliência
não opera em todo o espectro da alma.
Da preguiça
Tenho a impressão de que ela, antes de sair para
o trabalho, me pediu para comprar Raid porque estávamos com uma invasão de
formigas... mas agora que me levantei não encontro formigas em lado nenhum, o
que significa que sonhei isso tudo. Tenho de lhe perguntar... sob risco de ser
gozada durante os próximos seis meses...
Apetecia-me sair e fazer qualquer coisa de
útil mas sempre que me levanto do sofá ele começa a chorar
convulsivamente. Não o posso abandonar à
sua triste agonia.
Ler, ver um filme, trabalhar no Photoshop...
pim pam pum... talvez dormir uma soneca.
Adenda: há formigas, há. Estavam todas escondidas dentro do açucareiro...
Adenda 2: se havia formigas no açucareiro... e se da primeira vez que tomei café não reparei - porque estava podre de sono - então... é mais do que provável que tenha bebido formigas...
Adenda 3 - se bebi... souberam-me a pato...
Coisas que me irritam profundamente:
9 de julho de 2013
-
a caneta com que escrevo melhor e com a qual mais gosto de escrever e que
defendo - à força de rosnar - das mãos alheias aka “senhores meus colegas”; cair, para castigo e por castigo, de bico no
chão.
Volta Paula, que estás perdoada
7 de julho de 2013
Não há nada de que mais
sintamos falta no Domingo à noite do que do Câmara Clara da Paula Moura
Pinheiro. O novo formato de magazine cultural com a Filomena Cautela não nos
convence e amiúde irrita-nos. Falta aquele savoir faire com extraordinário bom gosto
da equipa do Câmara Clara. Nem sempre os temas nos interessavam e nem sempre a
Paula Moura Pinheiro estava no seu melhor mas houve programas brilhantes.
Absolutamente brilhantes. E o grafismo das peças de reportagem valiam por tudo.
Não há nada igual e duvido que volte a haver.
Alguém conhece um Pai de Santo?
6 de julho de 2013
Primeiro
foi o esquentador que avariou.
Entretanto
já foi substituído.
Depois
deu a travadinha à televisão.
Entretanto, o Poltergeist que nela habitava parece ter emigrado.
Agora
temos a máquina de lavar a roupa possuída por uma entidade vesga.
Mete
água mas o tambor não roda...
Até
tenho medo de pensar no que poderá ser a seguir...
Silly day
Dia de folga com um calor infernal e eu
fechada em casa à espera de um homem que era suposto ter vindo ver os canos da
varanda. Ela manda-me mensagens a dizer que acabou de vender creme de vinho do
Porto e, claro, respondo-lhe à altura...
... pode-se fazer muita coisa com
creme de vinho do Porto...
... po-lo no pão, por exemplo...
... e isso...
Nem nos meus wildest dreams...
... julguei possível tal palhaçada. E toda a
minha adolescência foi passada sob o jugo dos governos de Cavaco... o que foi
mau... mas... apesar de tudo, não tão absurdo...
Abriu a época da caça
Objectos e/ou outras coisas que deverão
manter afastados de mim nos próximos 3 meses:
- Dicionários da Porto Editora,
independentemente da cor e do tamanho;
- X-actos;
- Tesouras, incluindo as que não cortam;
- Lápis afiados e canetas de bico fino;
- Agrafadores, com ou sem agrafos;
- Estagiários peso-pluma que possam ser
arremessados sem dificuldade;
- Estagiários nem por isso peso-pluma mas
que, após esforço, possam voar pelos ares;
- Pais que se demitem das suas funções (que nem sequer passam na escola a pedir a lista dos livros) e que
só falta exigirem que sejamos nós, livreiros, a educar os seus filhos.
É que não há pachorra para tanto “deixa estar que eles resolvem...”
E isto ainda só agora começou...
Manual para psicopatas
30 de junho de 2013
O que responder a uma pessoa
que nos pergunta se temos o “Como Fazer Amigos e Silenciar Pessoas?”
Coisas que nos deviam dizer
28 de junho de 2013
Conselhos úteis para a vida
#1
- Não bebam granizado de
vinho do Porto como se estivessem a comer gelado porque vão para casa a cantar o fado.
Estatísticas
Estamos sentadas no sofá a ver televisão,
completamente moles e a padecer de calor - das janelas abertas nem uma brisa -
quando, do nada, bufando, diz ela:
- Não entendo como é que podem dizer que as
pessoas fazem mais sexo no verão!
O inesperado da afirmação faz-me rir mas
depois, quando se levanta, reparo outra vez em como o vestido de trazer por
casa lhe assenta tão bem e em como deixa à mostra as pernas que tanto gosto de
catrapiscar e penso cá para comigo:
- Fazem pela fresquinha, meu amor. Fazem pela
fresquinha...
Afinidades
26 de junho de 2013
Não tenho o livro da minha vida, o autor da
minha vida, o filme ou realizador da minha vida. Tenho uma pequena lista de
simpatias e afinidades. Não existiu obra ou artista que tivessem remexido e
alterado as minhas entranhas mas existiram companheiros de viagem que deixaram
em mim a marca indelével de uma sensação. Lembro-me da experiência de leitura
de determinada obra pela sensação que me deixou mais do que pela epifania de um
paragrafo.
“Germinal” de Zola, “O Amante” de Margueritte
Duras, “O Estrangeiro” de Camus, “Ilhas na Corrente” de Hemmingway, “O Leitor”
de Bernhard Schlink, “Desgraça” de J. M. Coetzee, “O Livro das Ilusões” de Paul
Auster, “Viúva por um ano” de John Irving, “Cartas a Sandra” de Vergílio
Ferreira são algumas das afinidades que deixaram depósito em mim. Que deixaram
a memória de uma sensação e que, tal como a memória olfactiva, vão resgatando
momentos da minha vida: os que são motivo de regozijo e aqueles que não
preferindo esquecer trazem nas entrelinhas o saber acre da dor.
Hoje, numa daquelas feiras de edições e/ou
editoras mortas num centro comercial da baixa, comprei por cinco euros o livro “Teresa
e Isabel” de Violette Leduc e ao ler os primeiros capítulos enquanto
esperávamos pela hora do lanche como pretexto para escapar ao calor da rua,
senti que, muito possivelmente, estaria perante outra feliz afinidade.
Escrito em 1948 e proposto para edição em
1954 “Teresa e Isabel” foi sucessivamente censurado pelas editoras em nome de
uma moral castradora que achava escandalosa a liberdade com que a autora
escrevia sobre o amor e a sexualidade entre mulheres. E considerando a época é
efectivamente surpreendente a ousadia e, sobretudo, a coragem de escrever de
forma tão despida sobre o amor e a forma como se expressa. Claro que aos
censores escapou toda a doçura e poesia das palavras. Parágrafos inteiros de
beleza que demoraram mais de dez anos a chegar a quem pode, por fim,
compreende-la.
“Ela agarrou no meu livro, na minha lanterna,
deitou-me quase nas suas pernas. Depois levantou-me guardando-me nos seus
braços. Ela tinha tido um lançar de movimentos ousados comparados ao lançar de
um arco-iris intrépido. Os seus lábios abriram os meus sem os forçar, entraram,
demoraram-se como aventureiros tímidos sobre os meus dentes que eu fechava.
Durante esse instante de imobilidade, que nos era pessoal, a terra parou de
girar, os homens cessaram de nascer, de viver, de morrer. O tempo, o espaço, os
objectos, a consciência de nós mesmos tinham sido abolidos. Nós não existíamos
a não ser nos nossos lábios unidos. Existíamos neles como sonâmbulas que não
dormem. Os seus lábios moveram-se, escorregaram sobre os meus dentes,
misturaram a minha saliva com a dela, voltaram a vir, voltaram a partir,
retomaram no começo de novo beijo. Eles regressavam outra vez, puxavam ainda a
sua carne, a sua saliva, a minha. Da sua lentidão, nascia o quadro vivo da
lentidão e da doçura. Na minha boca, uma barcaça, e outra, e outra passavam. Os
seus lábios e os meus dentes eram rio, barcaça, cavalos de sirgagem, que
avançavam. À medida que as idas e vindas se renovavam, se prolongavam, eu
descia, nó após nó, numa noite nova. Sob esse vaivém de beijos, sob lábios que
se serviam do que lhes resistia eu era um sol que aquecia a noite.”
São João e luas gordas
24 de junho de 2013
Não
fomos ao São João. Não tivemos pernas para a folia. Mas vimos os balões –
imensos – a voar pelo céu e a parte de cima do fogo de artificio. O vizinho
veio oferecer sardinhas e caldo verde e com uma bejeca fresca ficou feita a
festa. Para o ano vamos para o bailarico. Está prometido.
A lua apanhámo-la escondida atrás do retransmissor do Monte da Virgem.
A lua apanhámo-la escondida atrás do retransmissor do Monte da Virgem.
Buracos e pó
20 de junho de 2013
A
televisão tem-se aguentado, a nossa casa é que parece ter sido transportada
para a Faixa de Gaza.
Electrodomésticos assombrados
18 de junho de 2013
Mal
entrei de férias, no início do mês, avariou o esquentador. Mas daquelas avarias
que não são de morte súbita mas de só funcionar quando lhe dava na real gana,
ou seja, sempre que púnhamos o pé no duche para tomar banho.
Hoje
acordámos ao som do martelo pneumático. Vão fazer um reshape à casa e deitar
abaixo umas coisas para arranjarem outras. Ora bem, a televisão não gostou do
barulho matinal e pouco demorou a demonstrar o seu desagrado ligando-se
sózinha. E não há nada mais irritante do que uma televisão que se vai ligando e
desligando quando muito bem lhe apetece.
Vamos
ver como se porta nos próximos dias senão lá temos de regressar à assistência
técnica... ou ir à bruxa...
Crafts 2
9 de junho de 2013
À
segunda tentativa continuou a faltar alguma coisa – esqueci-me de inverter as imagens –
mas o resultado com impressão a laser é um bilião de vezes melhor. Agora
apetece-me limar o trabalho de ontem e fazê-lo de novo.
E
claro que vamos dar companhia à Pin-Up. Jamais haverá uma Pin-Up alone em nossa
casa.
Crafts
Coisas
que devia ter feito:
- limar a madeira;
- usar impressão a laser
Tirando
isso, para primeira experiência, até que nem ficou mal.
Arts and Crafts
8 de junho de 2013
Há muito tempo que queria experimentar esta técnica
de transferência
de fotografia para madeira e hoje, que me lembrei de comprar o produto necessário, cá andei a decorar as caixas e caixinhas que a Isabel tem e onde
guarda a sua – cada vez maior – coleção de Tarot’s.
Amanhã, porque as obras de arte têm
de ficar uma noite inteira a secar, vamos ver que tal ficam. Se forem aprovadas
já temos prendas para dar no Natal.
I had a feeling that I could be someone
7 de junho de 2013
Não tem o kick de Tracy Chapman – vénias e saudades muchas –
mas sabe bem ouvir.
Get Lucky
6 de junho de 2013
Diz
ela que esta versão é melhor do que a original. Eu gosto das duas...
Flores Raras
5 de junho de 2013
Via De pés para o ar.
Tem muito, muito, muito boa
pinta. Não só pelo que interessa da história – a relação entre as duas – mas por tudo.
E quando um filme soa a “tudo” então é porque deve valer a pena.
Esperemos que venha para os nossos cinemas
senão o pirata em nós terá de penar.
Tiananmen
4 de junho de 2013
Passaram 24 anos mas lembro-me como se tivesse sido ontem. Não podíamos
acreditar no que estava a acontecer lá da mesma forma que, hoje, continuamos a
não acreditar no que vai acontecendo por aí. Nada se aprende.
Da verdade absoluta
2 de junho de 2013
Fiz 38 anos e quanto mais o tempo passa mais eu sinto que
me falta aprender qualquer coisa de absolutamente essencial.
Prós e Contras
28 de maio de 2013
Os meus piores receios não foram capazes de
prever tamanha manifestação de ignorância. A única coisa que me deixa
satisfeita é que, como sempre, o contra teve a capacidade de se autoimolar.
O bicho na cabeça dos outros
25 de maio de 2013
Às vezes somos nós quem coloca o bicho na
cabeça dos outros. Somos nós quem parte do principio que A ou B vai ter
dificuldade em aceitar e/ou compreender a nossa sexualidade e a forma como a
expressamos. E faço esta observação porque foi o que me ocorreu, depois de uma
conversa com o G. – meu colega de trabalho e também gay – em que ele dizia que
a maior luta que ainda tinhamos a travar era a da visibilidade. Claro que
concordo com ele. É um facto assente. Mas, por experiência própria, sei também
que muitas vezes confiamos pouco na capacidade de entendimento do outro.
Fazêmo-lo por um instinto básico de auto-protecção e é uma atitude normal mas,
às vezes, somos surpreendidos, apanhados na teia do nosso próprio preconceito.
Porque também os temos...
Há três anos mudámos para a casa onde estamos
hoje. Soubemos dela através de uma amiga e como se encaixava dentro daquilo que
andávamos à procura – ser perto do trabalho e de acordo com o nosso orçamento –
viemos de armas e bagagens viver na parte de cima da casa de duas “vélhinhas”
de 82 e 84 anos respectivamente. Dada a idade das senhoras achámos por bem que
teríamos de ter cuidado com demonstrações públicas de afecto. Não as
conhecíamos bem e não queríamos incorrer no risco de as ofender. A sua idade merecia
certa reverência e estávamos dispostas a isso; a respeita-las da mesmo forma
que gostaríamos que nos respeitassem. Com candura.
Poucos dias depois de termos mudado e ainda
com a casa virada do avesso e cheia de caixas e tralha a “vélhinha senhoria” pediu-nos
para descermos à casa dela para vermos se nos interessava um sofá que ela tinha
e podia dispensar. Não nos interessava mas ficámos a conversar um pouco com
ela. A meio da conversa diz-nos:
- Ai, eu tenho que vos perguntar um coisa.
Deixámo-la à vontade para perguntar,
convictas de que seria algum assunto relacionado com a casa, o aluguer ou a
partilha das contas de luz e água mas nunca aquilo que ela, frontalmente, sem
papas na língua, nos perguntou.
- Vocês estão bem assim, são felizes sem um homem?
– quis saber. Ficámos sem fala, de boca aberta. Olhámos uma para a outra, com
uma vontade imensa de rir, encolhemos os ombros e respondemos:
- Sim, Dona Ana, somos muito felizes sem
homem.
- Então está bem – conclui ela – Se são
felizes é o que importa. É o que se quer.
A nossa amiga deve ter-se descaído com algum
comentário quando lhe disse que tinha duas pessoas interessadas na casa. Sempre
nos esquecemos de lhe perguntar. Ou então a nossa senhoria, inteligente como é,
uma vez que só tínhamos um cama, o que significava que dormíamos juntas; chegou
às conclusões óbvias ou, pelo menos, à suspeita. E curiosa como também é, fez
uma pergunta honesta que mereceu uma resposta honesta. E nós, que achávamos que
por elas serem octagenárias tinham uma mentalidade retrógrada, levámos uma bela
bofetada de luva branca. Não existia nenhum bicho na cabeça delas, apenas na
nossa.
Agora, de uma forma bastante peculiar,
somos uma big happy familly. Elas são as
“nossas meninas” e nós somos as delas. E isto ensinou-nos a ter um pouco de fé
no outro e na sua capacidade de entendimento. Mesmo que, às vezes, leve o seu
tempo a manifestar-se.
Grosso modo as surpresas - as boas - acontecem onde e quando não
as esperamos.
O Cavaco é que a sabe
18 de maio de 2013
Talvez Cavaco tenha razão e a marota da
virgem Maria ande por aí a fazer das suas. É que o que aconteceu ontem não era
suposto ter acontecido e se a aprovação da lei não ocorreu por pura distracção
então foi a tal intervenção divina de que falava o Aníbal. Some things really
are meant to happen.
Convencidos de que a votação iria ser
maioritariamente contra, à semelhança de outras votações sobre os mesmos
assuntos, ninguém nos partidos se preocupou em saber qual era a tendência de
voto dos seus deputados. Sobretudo nos partidos de direita.
O PS, ao contrário do que toda a gente
esperava, votou quase todo a favor. A CDU idem aspas e o CDS não previu as suas
abstenções. Os deputados do PSD que decidiram votar a favor calaram-se bem
caladinhos porque não quiseram influenciar ninguém e, acto contínuo, ninguém os
influenciou. 28 deputados faltaram.
Entre arrogância e distração e todo um
conjunto de imponderabilidades passa uma lei que abre um conflito de direitos
dentro da própria comunidade gay: uns podem co-adoptar, os outros não podem
adoptar de todo. E este conflito interessa-nos... porque significa que a lei começa a contradizer-se.
É uma vitória esta vitória mas ainda mais
saborosa por ter acontecido bem debaixo dos seus arrogantes narizes. A
consciência humana quando expressa em saudável liberdade opera maravilhas.
O espanto dos arrogantes quando foi revelada
a votação? Priceless.
Ó diabos!
17 de maio de 2013
Está dificil arranjar isto...
P.S – One must wait
until July... LOL Nurture the Pirate in you…
A small step for man. . .
É
bom quando assinalamos as coisas boas que acontecem no nosso País, como hoje,
com a aprovação da lei que permite a co-adopção entre casais do mesmo sexo.
Repõe-se a justiça onde ela não existia e salvaguarda-se aquilo que era preciso
proteger e que compete à sociedade proteger: o interesse maior e único da
criança. E por isso, por este pequeno passo, fico imensamente contente. E
imensamente orgulhosa por a democracia ter encontrado forte expressão no
parlamento.
Mas
ainda falta muito para que, efectivamente, sejamos todos iguais aos olhos da
lei. Foi um pequeno passo, o primeiro que mais tarde servirá de alavanca para a
aprovação da adopção para todos mas a sensação que me fica é de sabor a pouco.
Ainda assim, hurray!, o mundo está a mudar à frente dos nossos olhos no que às
questões LGBT diz respeito e poder assistir a isto e, de certa forma, ser parte
disto, é um privilegio.
A
luta continua.
TPM
13 de maio de 2013
Os sintomas têm vindo a piorar com a passagem do
tempo. Quanto mais velha fico mais sintomas arrecado. As dores - que quando era
substancialmente mais nova não me atacavam - há muito que vieram para ficar e
as alterações de humor... as alterações de humor... o que dizer das alterações
de humor?
Grosso modo fico mais sensível, mais irritadiça, mais
dark, mais resmungona e muito menos tolerante. Muito muito menos. O truque para
sobreviver a estes dias e para que os outros também sobrevivam é remeter-me ao
silêncio, manter um low-profile, fazer de conta que não estou no mundo, que fui
ali ao lado e já volto.
Costuma resultar. Mas aliemos o TPM à tua ausência e
encontramos a fórmula perfeita para the ultimate raging bitch. De tal
modo bitch que me sinto na obrigação de avisar os meus colegas de
trabalho de que tempestades se aproximam no horizonte.
Por este andar, quando estiver na menopausa, vão ter
de me internar numa prisão de alta segurança.












