Os da casa II
As pessoas que trabalham comigo têm-me em conta de
paciente, ponderada e de trato fácil. Dizem-me que mais depressa acaba o mundo
do que eu “perco a cabeça e parto a loiça toda”. Por isso, ontem, ao ter
passado – literalmente - o dia todo a resmungar porque, basicamente, tive de
desfazer uma porcaria de trabalho feito por ordem de alguém que ganha o
suficiente para ter mais juízo, desafiei as leis do universo e chateei a
moleirinha a toda a gente. Tanto que até eu me cansei de me ouvir... e logo eu, que nem por isso sou de muitas
falas.
Trabalhar com muitas mulheres é complicado
por todas as razões óbvias, instituídas, assumidas, erradamente presumidas e
todas aquelas que ainda não foram apontadas; mas trabalhar com muitos homens
também não é fácil. Em certos aspectos é pior. Sobretudo quando cada um deles
acha que mija mais longe do que o outro e que é mais inteligente do que o outro
e mais assertivo do que o outro e com mais autoridade do que todos. Era
manda-los medir e comparar as pilinhas para ver se deixavam as pessoas
trabalhar sossegadas.
Se há coisas que me irritam uma delas é a das
pessoas acharem que por serem hierarquicamente superiores são automaticamente mais
inteligentes. Não são. Não são! E não são porque insistem no erro de não
escutarem as equipas – que são quem, grosso modo, está por dentro da dinâmica do
trabalho – e imporem as suas vontades. Que mais tarde ou mais cedo se revelam
erradas e implicam perda de tempo e energia para toda a gente.
Os da casa
1 de agosto de 2013
A canção dos Ala dos Namorados fala dos “Loucos
de Lisboa” mas lá na minha Livraria existem os Loucos Residentes. Um deles,
rapaz ainda novo e que, de certa forma, ali vimos crescer, costumava sentar-se
no chão da secção infantil, encostado à estante de banda desenhada, a ler os
livros e a reproduzir alto os sons neles ilustrados. Não foram poucas as vezes
em que, estando a atender alguém, o meu discurso foi interrompido por um
VRUUUUUUUMMMMMM sonoro ou uma gargalhada maléfica.
Agora, porque temos sofás e banquinhos
espalhados por todo o lado, já não se senta no chão. Leva os livros – agora de
anedotas – para a zona nobre da Livraria e fica por lá sentado. Já não reproduz
os sons mas volta e meia – quando alguma criança se lembra de começar a chorar
e/ou aos berros – solta um “POUCO BARULHO QUE HÁ AQUI PESSOAS QUE ESTÃO A
TENTAR LER!!!!” que nos deixa a todos em sentido.
O outro louco residente, o meu preferido, é o
Srº Nascimento. É um senhor bem posto, dos seus 60 e poucos, alto, magro e de
voz profunda. Muito culto. Nem sempre em perfeito equilibrio mental mas
inofensivo.
No inicio, quando ainda não sabiamos lidar
com ele, ficávamos horas pavorosas a ouvi-lo falar. À custa disso ficou a saber
o signo de todas os funcionários da Livraria e passados estes anos todos ainda
se lembra. Também nós nos lembramos – dolorosamente bem – das suas faustas
preleções sobre astrologia.
Hoje passou por lá e como sempre, mesmo que
tenhamos a Livraria virada do avesso, completamente desarrumada e com tudo fora
de sitio, continuamos a ser os melhores do mundo. A melhor Livraria à face da
terra. E como sempre, assim que me viu, o cumprimento foi o mesmo.
- Srª
Gémeos, como está? Fantástica como sempre. A eterna jovem.
- A Srª Gémeos estava bem, obrigada.
Quase que gritava Habemus Papa! Mas faltou o quase. . .
Pope Francis: Who am I to judge gay people?
Mas... não é mau, não é mau. É menos mau. Como declaração
de princípios não é mau. Há que começar por algum lado.
1000 Papas de mão dada no fundo do mar são um bom princípio...
Horas mais tarde tropeço nisto e grito, sim, Habemus Bispo!
Pet Shop Boys – It’s a Sin
1000 Papas de mão dada no fundo do mar são um bom princípio...
Horas mais tarde tropeço nisto e grito, sim, Habemus Bispo!
Do refrão se faz canção inteira
27 de julho de 2013
Hum... a letra, coitadita, podia ser melhor...
Estás aqui. . .
24 de julho de 2013
Cansadinhas
do Passos Coelho e Companhia mudamos do telejornal da Sic para o Campeonato
Europeu de Futebol Feminino na EuroSport. Claro que não sem ela ameaçar “estás
aqui estás a apanhar!”. Entretida com o jogaço que as Suecas estavam a fazer
contra a Alemanha dou por ela a dizer, sempre que apareciam as catraias em
plano mais próximo: “é gira”, “também é gira”, “muito gira”, “hum hum”...
...
bem bem, alguém estava aqui, estava a apanhar e, definitivamente, não era eu...
...
mas taditas das Suecas. Mereciam ganhar...
Teimosa que nem um arrocho! *
Hospital?
Não, que tem medo de injecções.
A dor? Continua. Hoje um bocadinho melhor mas
continua.
Mulher teimosa, caneco!
* Expressão
típica de Castelo Branco que significa teimosa
que nem uma mula. Ela usa muitas expressões da térrinha. No início, muito
no início, eu pensava: “não percebo o que
queres dizer com isso mas és gira como o raio...”
Hoje já as entendo e até
já as uso.
E continuo a achar que ela é gira como o raio.
Das folgas
20 de julho de 2013
Quando
não se avariam os electrodomésticos avariamo-nos nós. Se a teimosa da minha
mulher não estiver melhor do ombro – que lhe tem doído toda a semana e hoje de
forma bastante aguda – amanhã visitamos o Hospital. À conta dos pills que tomou para a dor, estava a contar chegar a casa e encontra-la a levitar sobre uma
densa nuvem de fumo de incensos mas... estava a dormir. Ferrada.
O Livreiro como potencial homicida. . .
18 de julho de 2013
Fazer uma reserva de livros escolares obedece
a regras muitos simples. O encarregado de educação traz a lista dos livros que
precisa, preenche uma ficha onde indica qual é o nome do aluno, qual é a escola
que vai frequentar, qual o ano e quais os contactos.
Num mundo ideal, num mundo perfeito e
minimamente civilizado, todo o ser humano com crias em idade escolar saberia as
regras e procuraria cumpri-las. Não são complicadas e são muito do senso comum.
Há coisas demasiado óbvias para serem contestadas.
Mas não. Não. Claro que não. Claro que,
perante tudo aquilo que é óbvio há quem ache que, só porque sim, tem todo o
direito de reclamar ou fazer birra.
Dentro da minha cabeça dou respostas
lindas às birras dos meus clientes... e não são tão... hum... floreadas como os exemplos em baixo...
Tenho
de preencher isto? Não basta deixar a lista?
[Basta.
Temos um sistema de identificação de impressões digitais e isso é o suficiente
para depois a avisarmos de que a sua encomenda está pronta. Ah, e somos mestres
em telepatia. Também não precisa deixar o contacto.]
Mas
tenho de preencher? O ano passado não era nada assim.
[Pois, não
devia ser. O ano passado foi quando partiu as mãozinhas, não foi? Não podia
escrever, pois coitadinha...]
Ai
tenho de trazer lista? Pensei que era só dar o nome da escola e o ano...
[Sim, e
também vamos buscar as notas do seu filho e assinamos termos de responsabilidade
para visitas de estudo e zelamos pelo bem estar da amante do seu marido. E até
faríamos o jeito – porque somos uns gaj@s porreir@s - de verificar se as listas
estão publicadas no site da escola se não soubéssemos já que a escola em
questão ainda não actualizou as mesmas.
E se
perante essa justificação ainda me olha com cara de tacho e quase a dizer que a
culpa de todos os males do universo é minha tem sorte de não lhe sugerir que,
já que a escola fica ali a dois passos, o melhor é pegar no rabo e ir cumprir o
seu dever de educador]
Vocês
têm as listas, não têm?
[Neste momento
só mesmo a das compras que tenho de fazer no supermercado mas arranjo-lhe a dos
prémios Nobel]
O que é
isto do Estabelecimento de Ensino?
[Duh?!?!?
Tanto que me apetece exclamar isto, bem alto, quando são as marmanjas das crias
com Iphone e Ipod e Icarago com app para tudo e mais alguma coisa – menos para
as coisas banais da vida - a perguntar-me isso. Andam aqueles pobres pais a
gastar dinheiro em livros para quê?]
Isto já não vai lá com dicionários da Porto
Editora. Vou ver se ainda se arranja o Dicionário da Academia das Ciências de
Lisboa.
Não há condições!
17 de julho de 2013
Como
é que uma mulher pode trabalhar sossegada se levanta os olhos e vê, na mega
televisão que lhe fica no campo de visão, as Suecas a correr atrás das
Italianas, as Italianas a correr atrás das Suecas, todas a correr atrás de uma
bola...
... este é um post da categoria do “estás aqui estás a apanhar...”
Apparat
16 de julho de 2013
Ouvir Apparat será sempre uma experiência
embrulhada em emoções contraditórias. Está impregnado de ti que mo deste a
conhecer e impregnado de perda porque foi a banda sonora dos dias que precederam
a partida da minha mãe. Talvez por isso signifique para mim a vida e os seus
extremos e aquilo que de entremeio se lhe queda e que sou eu.
Parece que esta altura o pede sempre para
ouvir. Só um pouquinho de cada vez. Todos os anos se inicia em mim esta espécie de contagem
decrescente e já não tento contraria-la. Faz parte. É como se, tendo presente
os dias e os momentos, pudesse tocar-me o ombro, o meu ombro de então, e me
pudesse dizer baixinho ao ouvido: “Tem calma. Vais conseguir sobreviver a isto”.
Farta de electrodomésticos com mau génio
13 de julho de 2013
O update semanal indica que a máquina de
lavar roupa já voltou a funcionar às mil maravilhas. Os homens das obras é que,
de tanto a tirarem e porem no sítio, acabaram por ligar mal os tubos.
Hoje, por coincidência também de folga – as minhas
folgas parecem estar condenadas – acordei, tardííííííssimo, para uma arca
congeladora tão cheia de gelo que não fechava. Tudo bem que a culpa foi nossa
que a deixámos mal fechada mas tenham dó. Não há nada mais estúpido na vida do
que estar de joelhos, com o secador de cabelo em riste, investindo contra
blocos de gelo na tentativa desesperada daquilo derreter mais depressa...
Na próxima folga vou para um Hotel...
... e agora vou ter com ela.
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Paul Theroux
“Disse-me um Adivinho” foi dos livros mais
divertidos e instrutivos que li nos últimos anos. Agora faço a viagem ao
contrário usando outros olhos para me guiarem. Tenho a impressão de que a aventura vai ser, também, para não mais esquecer.
A Gaiola Dourada
Será para ter medo? Muito medo? Mas tem a Rita Blanco...
por isso, se calhar... buenas noches!
Da condição feminina
Também a ler “Teresa e Isabel” de Violette
Leduc – a tal novela tanto tempo censurada e tão tardiamente publicada – ocorreu-me
ir ver em que ano foi publicado “Sexus” de Henry Miller. E qual o meu espanto –
ou não – quando a wikipedia me revela que foi publicado em Paris –
espantemo-nos com a cidade – em 1949. E espantemo-nos com a cidade porque,
cinco anos mais tarde, no mesmo local das luzes e da modernidade, Violette Leduc vê
recusada a publicação da sua novela. O porquê já sabemos. É um porquê que
continua com amarras bem presas nos dias de hoje.
Leduc era mulher. Primeiro ponto. Bastaria
apenas este.
Segundo ponto, Leduc era mulher e era
lésbica.
Terceiro ponto, Leduc era mulher, lésbica e falava
sem pudor e em pormenor da sexualidade e sensualidade femininas.
Quarto ponto, Leduc exultava o prazer
feminino. Como podia tal?
Quinto ponto – que deve ter feito muita
confusão na cabeça daqueles homens – Leduc exultava o prazer da mulher às mãos
de outra mulher.
Sexto ponto, Leduc falava da sua própria
experiência. A definitiva ousadia.
De Henry Miller diz-se que não há escritor
mais honesto. Talvez. Não sei. Tinha vinte anos e consegui ler metade de “Sexus”
– nunca mais lhe peguei. Talvez fosse o escritor mais honesto mas mesmo que não
fosse era meritório desse elogio pelo simples facto de ser homem e falar
despudoradamente do seu pénis murcho incapaz de perform – entre homens não há honestidade mais crua. E não está mal, não é o seu
talento que está em causa mas a forma como se fazia – e ainda se faz – a escolha
do que é bom e do que não vale a pena. Num mundo fálico, o editorial também, é
óbvio sobre quem recai a escolha e o escárnio com que se deita ao lixo o que,
para eles, não presta. Para com a mulher continuam a ter certa condescendência.
Sou levada a pensar que a novela de Leduc não
foi tanto censurada pelo seu conteúdo e pelas suas descrições mas por receio de
que a sua revelação levasse à libertação da consciência da mulher e à
reclamação dos seus direitos como ser sexual. É uma bela teoria da conspiração,
não?
Não sou feminista ferrenha mas tendo a ser
cada vez mais feminista. Sou-o por observação – salvo raras excepções - do
comportamento masculino no meu local de trabalho e pelo comportamento masculino
de uma forma geral. Sou-o também pela observação de um determinado
comportamento feminino mas isso são outros quinhentos. A verdade é que isso da igualdade, volta e meia, faz-me rir.
Do Policial Nórdido
Stieg Larsson colocou a fasquia muito alta. E
é chato quando queremos encontrar substitutos e não há quem lhe chegue aos
calcanhares.
Já li Camila Lackberg e Lars Kepler mas não
me convenceram. Agora estou a terminar Karin Fossum, a dita senhora do crime
Norueguês. Ainda não decidi se gosto ou não. É um romance estranho, o que me
leva a concluir que os noruegueses são estranhos, mas é, ainda assim, um
romance que está noutra dimensão; muito superior a Lackberg e a Kepler.
É um policial de ambientes - desolados – que
nos faz entranhar debaixo da pele das personagens e nos leva, contra a nossa
vontade, a criar empatia com elas; como se nos reconhecesemos um pouco iguais
no dano que a vida nos provocou e na constatação do facto de que a resiliência
não opera em todo o espectro da alma.
Da preguiça
Tenho a impressão de que ela, antes de sair para
o trabalho, me pediu para comprar Raid porque estávamos com uma invasão de
formigas... mas agora que me levantei não encontro formigas em lado nenhum, o
que significa que sonhei isso tudo. Tenho de lhe perguntar... sob risco de ser
gozada durante os próximos seis meses...
Apetecia-me sair e fazer qualquer coisa de
útil mas sempre que me levanto do sofá ele começa a chorar
convulsivamente. Não o posso abandonar à
sua triste agonia.
Ler, ver um filme, trabalhar no Photoshop...
pim pam pum... talvez dormir uma soneca.
Adenda: há formigas, há. Estavam todas escondidas dentro do açucareiro...
Adenda 2: se havia formigas no açucareiro... e se da primeira vez que tomei café não reparei - porque estava podre de sono - então... é mais do que provável que tenha bebido formigas...
Adenda 3 - se bebi... souberam-me a pato...
Coisas que me irritam profundamente:
9 de julho de 2013
-
a caneta com que escrevo melhor e com a qual mais gosto de escrever e que
defendo - à força de rosnar - das mãos alheias aka “senhores meus colegas”; cair, para castigo e por castigo, de bico no
chão.
Volta Paula, que estás perdoada
7 de julho de 2013
Não há nada de que mais
sintamos falta no Domingo à noite do que do Câmara Clara da Paula Moura
Pinheiro. O novo formato de magazine cultural com a Filomena Cautela não nos
convence e amiúde irrita-nos. Falta aquele savoir faire com extraordinário bom gosto
da equipa do Câmara Clara. Nem sempre os temas nos interessavam e nem sempre a
Paula Moura Pinheiro estava no seu melhor mas houve programas brilhantes.
Absolutamente brilhantes. E o grafismo das peças de reportagem valiam por tudo.
Não há nada igual e duvido que volte a haver.
Alguém conhece um Pai de Santo?
6 de julho de 2013
Primeiro
foi o esquentador que avariou.
Entretanto
já foi substituído.
Depois
deu a travadinha à televisão.
Entretanto, o Poltergeist que nela habitava parece ter emigrado.
Agora
temos a máquina de lavar a roupa possuída por uma entidade vesga.
Mete
água mas o tambor não roda...
Até
tenho medo de pensar no que poderá ser a seguir...
Silly day
Dia de folga com um calor infernal e eu
fechada em casa à espera de um homem que era suposto ter vindo ver os canos da
varanda. Ela manda-me mensagens a dizer que acabou de vender creme de vinho do
Porto e, claro, respondo-lhe à altura...
... pode-se fazer muita coisa com
creme de vinho do Porto...
... po-lo no pão, por exemplo...
... e isso...
Nem nos meus wildest dreams...
... julguei possível tal palhaçada. E toda a
minha adolescência foi passada sob o jugo dos governos de Cavaco... o que foi
mau... mas... apesar de tudo, não tão absurdo...
Abriu a época da caça
Objectos e/ou outras coisas que deverão
manter afastados de mim nos próximos 3 meses:
- Dicionários da Porto Editora,
independentemente da cor e do tamanho;
- X-actos;
- Tesouras, incluindo as que não cortam;
- Lápis afiados e canetas de bico fino;
- Agrafadores, com ou sem agrafos;
- Estagiários peso-pluma que possam ser
arremessados sem dificuldade;
- Estagiários nem por isso peso-pluma mas
que, após esforço, possam voar pelos ares;
- Pais que se demitem das suas funções (que nem sequer passam na escola a pedir a lista dos livros) e que
só falta exigirem que sejamos nós, livreiros, a educar os seus filhos.
É que não há pachorra para tanto “deixa estar que eles resolvem...”
E isto ainda só agora começou...
Manual para psicopatas
30 de junho de 2013
O que responder a uma pessoa
que nos pergunta se temos o “Como Fazer Amigos e Silenciar Pessoas?”
Coisas que nos deviam dizer
28 de junho de 2013
Conselhos úteis para a vida
#1
- Não bebam granizado de
vinho do Porto como se estivessem a comer gelado porque vão para casa a cantar o fado.
Estatísticas
Estamos sentadas no sofá a ver televisão,
completamente moles e a padecer de calor - das janelas abertas nem uma brisa -
quando, do nada, bufando, diz ela:
- Não entendo como é que podem dizer que as
pessoas fazem mais sexo no verão!
O inesperado da afirmação faz-me rir mas
depois, quando se levanta, reparo outra vez em como o vestido de trazer por
casa lhe assenta tão bem e em como deixa à mostra as pernas que tanto gosto de
catrapiscar e penso cá para comigo:
- Fazem pela fresquinha, meu amor. Fazem pela
fresquinha...
Afinidades
26 de junho de 2013
Não tenho o livro da minha vida, o autor da
minha vida, o filme ou realizador da minha vida. Tenho uma pequena lista de
simpatias e afinidades. Não existiu obra ou artista que tivessem remexido e
alterado as minhas entranhas mas existiram companheiros de viagem que deixaram
em mim a marca indelével de uma sensação. Lembro-me da experiência de leitura
de determinada obra pela sensação que me deixou mais do que pela epifania de um
paragrafo.
“Germinal” de Zola, “O Amante” de Margueritte
Duras, “O Estrangeiro” de Camus, “Ilhas na Corrente” de Hemmingway, “O Leitor”
de Bernhard Schlink, “Desgraça” de J. M. Coetzee, “O Livro das Ilusões” de Paul
Auster, “Viúva por um ano” de John Irving, “Cartas a Sandra” de Vergílio
Ferreira são algumas das afinidades que deixaram depósito em mim. Que deixaram
a memória de uma sensação e que, tal como a memória olfactiva, vão resgatando
momentos da minha vida: os que são motivo de regozijo e aqueles que não
preferindo esquecer trazem nas entrelinhas o saber acre da dor.
Hoje, numa daquelas feiras de edições e/ou
editoras mortas num centro comercial da baixa, comprei por cinco euros o livro “Teresa
e Isabel” de Violette Leduc e ao ler os primeiros capítulos enquanto
esperávamos pela hora do lanche como pretexto para escapar ao calor da rua,
senti que, muito possivelmente, estaria perante outra feliz afinidade.
Escrito em 1948 e proposto para edição em
1954 “Teresa e Isabel” foi sucessivamente censurado pelas editoras em nome de
uma moral castradora que achava escandalosa a liberdade com que a autora
escrevia sobre o amor e a sexualidade entre mulheres. E considerando a época é
efectivamente surpreendente a ousadia e, sobretudo, a coragem de escrever de
forma tão despida sobre o amor e a forma como se expressa. Claro que aos
censores escapou toda a doçura e poesia das palavras. Parágrafos inteiros de
beleza que demoraram mais de dez anos a chegar a quem pode, por fim,
compreende-la.
“Ela agarrou no meu livro, na minha lanterna,
deitou-me quase nas suas pernas. Depois levantou-me guardando-me nos seus
braços. Ela tinha tido um lançar de movimentos ousados comparados ao lançar de
um arco-iris intrépido. Os seus lábios abriram os meus sem os forçar, entraram,
demoraram-se como aventureiros tímidos sobre os meus dentes que eu fechava.
Durante esse instante de imobilidade, que nos era pessoal, a terra parou de
girar, os homens cessaram de nascer, de viver, de morrer. O tempo, o espaço, os
objectos, a consciência de nós mesmos tinham sido abolidos. Nós não existíamos
a não ser nos nossos lábios unidos. Existíamos neles como sonâmbulas que não
dormem. Os seus lábios moveram-se, escorregaram sobre os meus dentes,
misturaram a minha saliva com a dela, voltaram a vir, voltaram a partir,
retomaram no começo de novo beijo. Eles regressavam outra vez, puxavam ainda a
sua carne, a sua saliva, a minha. Da sua lentidão, nascia o quadro vivo da
lentidão e da doçura. Na minha boca, uma barcaça, e outra, e outra passavam. Os
seus lábios e os meus dentes eram rio, barcaça, cavalos de sirgagem, que
avançavam. À medida que as idas e vindas se renovavam, se prolongavam, eu
descia, nó após nó, numa noite nova. Sob esse vaivém de beijos, sob lábios que
se serviam do que lhes resistia eu era um sol que aquecia a noite.”
São João e luas gordas
24 de junho de 2013
Não
fomos ao São João. Não tivemos pernas para a folia. Mas vimos os balões –
imensos – a voar pelo céu e a parte de cima do fogo de artificio. O vizinho
veio oferecer sardinhas e caldo verde e com uma bejeca fresca ficou feita a
festa. Para o ano vamos para o bailarico. Está prometido.
A lua apanhámo-la escondida atrás do retransmissor do Monte da Virgem.
A lua apanhámo-la escondida atrás do retransmissor do Monte da Virgem.
Buracos e pó
20 de junho de 2013
A
televisão tem-se aguentado, a nossa casa é que parece ter sido transportada
para a Faixa de Gaza.
Electrodomésticos assombrados
18 de junho de 2013
Mal
entrei de férias, no início do mês, avariou o esquentador. Mas daquelas avarias
que não são de morte súbita mas de só funcionar quando lhe dava na real gana,
ou seja, sempre que púnhamos o pé no duche para tomar banho.
Hoje
acordámos ao som do martelo pneumático. Vão fazer um reshape à casa e deitar
abaixo umas coisas para arranjarem outras. Ora bem, a televisão não gostou do
barulho matinal e pouco demorou a demonstrar o seu desagrado ligando-se
sózinha. E não há nada mais irritante do que uma televisão que se vai ligando e
desligando quando muito bem lhe apetece.
Vamos
ver como se porta nos próximos dias senão lá temos de regressar à assistência
técnica... ou ir à bruxa...










