This is Major Tom
Começo as férias com um murro no estômago. As coisas que
acontecem só aos outros acontecem também perto de casa, aos nossos. Temos de
estar atentos, temos de estar ligados. Numa época em que a comunicação é o mote
e a inspiração temos de rebentar a bolha para onde esse conceito nos remete e
isola e conectar-nos realmente. A vida não pode ser apenas contada e ter valor
pelos posts do facebook – há tanto que fica por dizer nas entrelinhas dos
smiles – há que estar cara a cara, há que escutar a voz sem a interferência de
um satélite, há que perceber no semblante e no olhar o que fica por dizer
depois de todas as palavras proferidas. Há que estar presente. Há que reservar
uma parte do dia – por diminuta que seja – ao cuidado de saber como estão os
outros; sair de nós, perceber o que nos rodeia, fazer parte do mundo, fazer
parte dos outros, fazer ligação à terra.
A vida por si só é uma grande surpresa e quando as más
acontecem às vezes é tarde demais. Temos de prevenir o tarde demais. Temos de
estar atentos. Temos de cuidar uns dos outros.
Transição
27 de setembro de 2013
I
Shall Believe - Sheryl Crow
O
bom do Outono, dos dias curtos e frios – transposta esta sensação de tristeza
que sempre me acossa na mudança de estação – é que vamos poder estar mais
agarradinhas no sofá e na cama.
Traces of you
13 de setembro de 2013
Todos os anos acho que vai ser diferente mas
no dia exacto em que te começas a descontar de mim sinto-me sempre como se
estivesse naquele corredor escuro onde apenas se escutavam os meus
passos e ao fundo do qual já te preparavas para partir.
É certo que a dor se atenua mas o espanto... o
espanto acho que aumenta. Estavas, já não estás e eu ainda me sobressalto. Acho
que vai ser sempre assim.
Mais quatro dias e começa um novo ciclo.
Programa despertar
11 de setembro de 2013
No mês em que mais precisava de dormir
sossegadinha, para me aguentar em pé, tenho homens a martelar no telhado e homens
a martelar na varanda. Se isso não bastasse, os homens do telhado têm um rádio sintonizado
na Rádio Renascença que vomita música e pérolas de sabedoria desde as 8:30 da
manhã. Não me falta, por isso, incentivo moral para enfrentar os agrestes progenitores.
Blue birds
10 de setembro de 2013
Hoje entrou um pássaro no back-office e por
momentos nada mais importou no mundo do que liberta-lo. Foi bom para nos lembrarmos de que existe vida e sanidade depois desta campanha demoníaca.
O meu caminho é por onde vais
8 de setembro de 2013
Tenho a impressão de que, naquele verão de há
seis anos, aconteceu tudo. Tudo o que pude controlar e tudo o que me fugiu do
controlo.
Foste-me acrescentada quando a vida arrancava
parte de mim e, às vezes, parece-me que o acaso de nos termos encontrado foi
engendrado para que em mim – ou em nós - não desabasse tudo.
Há dias em que parece que carregamos sobre os
ombros o peso de mil anos mas não há cansaço que sobreviva ao teu abraço. Ainda
me espanto, às vezes, pelo teu olhar que se cruza com o meu e pelo sorriso que
me aflora ao canto da boca. Pertences-me e eu pertenço-te e com essa entrega somos
livres.
O caminho até aqui nem por isso foi fácil mas
tivémos a coragem de o fazer e se te amo é também por isso. Pela perseverança
apesar do medo.
O que te posso prometer continua a ser este
amor calmo que temos e as tiradas patetas que, volta e meia, te fazem rir à
gargalhada.
A minha casa é em ti e a vida só existe
porque tu estás.
Parabéns a nós!!
||
||
Mafalda
Veiga – Imortais | Tiago Bettencourt – Canção Simples | Sara Tavares – Quando dás
um pouco mais | Tom Jobim – Chega de Saudade |
Michael Bublé – Everything | Texas – When we are together
Só corridos à estalada. . .
6 de setembro de 2013
Quem trabalha com o “grande público” acaba
por tomar contacto com uma amostra bastante significativa da população de um
País. Em termos estatísticos é possível obter, ainda que de forma muito pouco
cientifica, uma ideia daquilo que somos e da forma como os comportamentos
individuais influem no nosso destino colectivo.
Ao trabalhamos com outras instituições
verificamos também que existe um efeito dominó com contornos de desgraça que
está enraizado na forma como fazemos as coisas. Não as fazemos bem logo desde o
inicio e contamos que seja sempre o próximo na cadeia alimentar a resolver os
problemas que tiveram origem nas nossas decisões – ou falta delas.
Quando se fala em crise de valores existe
efectivamente uma crise de valores. E os nossos problemas, obviamente
económicos, agravam-se - se é que não têm origem - na forma como achamos que
podemos seguir pela vida impunes, reclamando direitos imaginários e recusando
cumprir deveres básicos, basilares, essenciais ao correcto e justo
funcionamento das sociedades.
Nestes últimos dias os meus colegas e eu
temos ouvido coisas assustadoras, de tão absurdas, da parte de alguns clientes.
E porque as “pérolas de sabedoria” têm surgido de todo o lado não se pode
imputar apenas a um grupo social a culpa por todos os males. A falta de bom
senso é transversal a toda a sociedade; tão estúpido é o pobre como o rico. E é
assustador.
É assustador porque, na maior parte do tempo,
sinto que “estamos entregues aos bichos” e que resistir - tentando ser
coerente, correcto, bom cidadão e bom trabalhador – cada vez mais parece não
valer a pena.
Anda me indigno muito e acho que é essa
capacidade para ainda me indignar que me tem permitido não perder a perspectiva
daquilo que é correcto e daquilo que está errado; mas temo que um dia as coisas deixem de me ser
assim tão importantes e eu faça como os outros e apenas encolha os ombros e
siga no meio do rebanho. E no meio de tudo o que assusta é isso o que temo
mais: deixar de me importar..
... porque às vezes dá mesmo vontade...
Do pecado. . .
2 de setembro de 2013
Hoje, FINALMENTE, fomos ao médico. O
diagnóstico era o que se esperava: ombro com contratura e tendinite. Mrs
Teimosa vai andar a tomar um anti-inflamatório novo e mais forte com
recomendação de fisioterapia se não melhorar.
No caminho para casa e porque há festa na
freguesia não resistimos e “jantámos” ali mesmo.
O inferno deve estar cheio de boas intenções
relacionadas com dietas... mas a verdade é que não comia um cachorro-quente há anos... e soube-me pela vida. Ela disse o mesmo das suas bifanas.
P.S - A foto tem legenda...
P.S - A foto tem legenda...
Inventário's aftermath
1 de setembro de 2013
Sam
Smith - Nirvana
Este
inventário de Agosto continua a parecer-me, mesmo depois de tantos anos, uma
coisa que apenas loucos varridos são capazes de fazer... isso e aturar pais aos
berros. Entre uma coisa e outra venha o diabo e escolha.
Até as pontinhas dos dedos me doem.
Do morder a língua...
28 de agosto de 2013
Elevando o meu microcosmos laboral à dimensão
do nosso País é fácil perceber porque é que as coisas estão no estado em que
estão e onde reside a essência do problema.
Exige-se paciência sobre-humana para estes
lados. Paciência para aturar os pais que foram de férias e só agora se lembram
que têm filhos e paciência para aturar chefes que não fazem a mais pálida ideia
do que estão a fazer.
Paciência porque ainda falta um mês para as
férias.
P.S - Entretanto fomos ver o "A Gaiola Dourada" e recomendamos vivamente. É brilhante!
P.S - Entretanto fomos ver o "A Gaiola Dourada" e recomendamos vivamente. É brilhante!
Os da casa II
As pessoas que trabalham comigo têm-me em conta de
paciente, ponderada e de trato fácil. Dizem-me que mais depressa acaba o mundo
do que eu “perco a cabeça e parto a loiça toda”. Por isso, ontem, ao ter
passado – literalmente - o dia todo a resmungar porque, basicamente, tive de
desfazer uma porcaria de trabalho feito por ordem de alguém que ganha o
suficiente para ter mais juízo, desafiei as leis do universo e chateei a
moleirinha a toda a gente. Tanto que até eu me cansei de me ouvir... e logo eu, que nem por isso sou de muitas
falas.
Trabalhar com muitas mulheres é complicado
por todas as razões óbvias, instituídas, assumidas, erradamente presumidas e
todas aquelas que ainda não foram apontadas; mas trabalhar com muitos homens
também não é fácil. Em certos aspectos é pior. Sobretudo quando cada um deles
acha que mija mais longe do que o outro e que é mais inteligente do que o outro
e mais assertivo do que o outro e com mais autoridade do que todos. Era
manda-los medir e comparar as pilinhas para ver se deixavam as pessoas
trabalhar sossegadas.
Se há coisas que me irritam uma delas é a das
pessoas acharem que por serem hierarquicamente superiores são automaticamente mais
inteligentes. Não são. Não são! E não são porque insistem no erro de não
escutarem as equipas – que são quem, grosso modo, está por dentro da dinâmica do
trabalho – e imporem as suas vontades. Que mais tarde ou mais cedo se revelam
erradas e implicam perda de tempo e energia para toda a gente.
Os da casa
1 de agosto de 2013
A canção dos Ala dos Namorados fala dos “Loucos
de Lisboa” mas lá na minha Livraria existem os Loucos Residentes. Um deles,
rapaz ainda novo e que, de certa forma, ali vimos crescer, costumava sentar-se
no chão da secção infantil, encostado à estante de banda desenhada, a ler os
livros e a reproduzir alto os sons neles ilustrados. Não foram poucas as vezes
em que, estando a atender alguém, o meu discurso foi interrompido por um
VRUUUUUUUMMMMMM sonoro ou uma gargalhada maléfica.
Agora, porque temos sofás e banquinhos
espalhados por todo o lado, já não se senta no chão. Leva os livros – agora de
anedotas – para a zona nobre da Livraria e fica por lá sentado. Já não reproduz
os sons mas volta e meia – quando alguma criança se lembra de começar a chorar
e/ou aos berros – solta um “POUCO BARULHO QUE HÁ AQUI PESSOAS QUE ESTÃO A
TENTAR LER!!!!” que nos deixa a todos em sentido.
O outro louco residente, o meu preferido, é o
Srº Nascimento. É um senhor bem posto, dos seus 60 e poucos, alto, magro e de
voz profunda. Muito culto. Nem sempre em perfeito equilibrio mental mas
inofensivo.
No inicio, quando ainda não sabiamos lidar
com ele, ficávamos horas pavorosas a ouvi-lo falar. À custa disso ficou a saber
o signo de todas os funcionários da Livraria e passados estes anos todos ainda
se lembra. Também nós nos lembramos – dolorosamente bem – das suas faustas
preleções sobre astrologia.
Hoje passou por lá e como sempre, mesmo que
tenhamos a Livraria virada do avesso, completamente desarrumada e com tudo fora
de sitio, continuamos a ser os melhores do mundo. A melhor Livraria à face da
terra. E como sempre, assim que me viu, o cumprimento foi o mesmo.
- Srª
Gémeos, como está? Fantástica como sempre. A eterna jovem.
- A Srª Gémeos estava bem, obrigada.
Quase que gritava Habemus Papa! Mas faltou o quase. . .
Pope Francis: Who am I to judge gay people?
Mas... não é mau, não é mau. É menos mau. Como declaração
de princípios não é mau. Há que começar por algum lado.
1000 Papas de mão dada no fundo do mar são um bom princípio...
Horas mais tarde tropeço nisto e grito, sim, Habemus Bispo!
Pet Shop Boys – It’s a Sin
1000 Papas de mão dada no fundo do mar são um bom princípio...
Horas mais tarde tropeço nisto e grito, sim, Habemus Bispo!
Do refrão se faz canção inteira
27 de julho de 2013
Hum... a letra, coitadita, podia ser melhor...
Estás aqui. . .
24 de julho de 2013
Cansadinhas
do Passos Coelho e Companhia mudamos do telejornal da Sic para o Campeonato
Europeu de Futebol Feminino na EuroSport. Claro que não sem ela ameaçar “estás
aqui estás a apanhar!”. Entretida com o jogaço que as Suecas estavam a fazer
contra a Alemanha dou por ela a dizer, sempre que apareciam as catraias em
plano mais próximo: “é gira”, “também é gira”, “muito gira”, “hum hum”...
...
bem bem, alguém estava aqui, estava a apanhar e, definitivamente, não era eu...
...
mas taditas das Suecas. Mereciam ganhar...
Teimosa que nem um arrocho! *
Hospital?
Não, que tem medo de injecções.
A dor? Continua. Hoje um bocadinho melhor mas
continua.
Mulher teimosa, caneco!
* Expressão
típica de Castelo Branco que significa teimosa
que nem uma mula. Ela usa muitas expressões da térrinha. No início, muito
no início, eu pensava: “não percebo o que
queres dizer com isso mas és gira como o raio...”
Hoje já as entendo e até
já as uso.
E continuo a achar que ela é gira como o raio.
Das folgas
20 de julho de 2013
Quando
não se avariam os electrodomésticos avariamo-nos nós. Se a teimosa da minha
mulher não estiver melhor do ombro – que lhe tem doído toda a semana e hoje de
forma bastante aguda – amanhã visitamos o Hospital. À conta dos pills que tomou para a dor, estava a contar chegar a casa e encontra-la a levitar sobre uma
densa nuvem de fumo de incensos mas... estava a dormir. Ferrada.
O Livreiro como potencial homicida. . .
18 de julho de 2013
Fazer uma reserva de livros escolares obedece
a regras muitos simples. O encarregado de educação traz a lista dos livros que
precisa, preenche uma ficha onde indica qual é o nome do aluno, qual é a escola
que vai frequentar, qual o ano e quais os contactos.
Num mundo ideal, num mundo perfeito e
minimamente civilizado, todo o ser humano com crias em idade escolar saberia as
regras e procuraria cumpri-las. Não são complicadas e são muito do senso comum.
Há coisas demasiado óbvias para serem contestadas.
Mas não. Não. Claro que não. Claro que,
perante tudo aquilo que é óbvio há quem ache que, só porque sim, tem todo o
direito de reclamar ou fazer birra.
Dentro da minha cabeça dou respostas
lindas às birras dos meus clientes... e não são tão... hum... floreadas como os exemplos em baixo...
Tenho
de preencher isto? Não basta deixar a lista?
[Basta.
Temos um sistema de identificação de impressões digitais e isso é o suficiente
para depois a avisarmos de que a sua encomenda está pronta. Ah, e somos mestres
em telepatia. Também não precisa deixar o contacto.]
Mas
tenho de preencher? O ano passado não era nada assim.
[Pois, não
devia ser. O ano passado foi quando partiu as mãozinhas, não foi? Não podia
escrever, pois coitadinha...]
Ai
tenho de trazer lista? Pensei que era só dar o nome da escola e o ano...
[Sim, e
também vamos buscar as notas do seu filho e assinamos termos de responsabilidade
para visitas de estudo e zelamos pelo bem estar da amante do seu marido. E até
faríamos o jeito – porque somos uns gaj@s porreir@s - de verificar se as listas
estão publicadas no site da escola se não soubéssemos já que a escola em
questão ainda não actualizou as mesmas.
E se
perante essa justificação ainda me olha com cara de tacho e quase a dizer que a
culpa de todos os males do universo é minha tem sorte de não lhe sugerir que,
já que a escola fica ali a dois passos, o melhor é pegar no rabo e ir cumprir o
seu dever de educador]
Vocês
têm as listas, não têm?
[Neste momento
só mesmo a das compras que tenho de fazer no supermercado mas arranjo-lhe a dos
prémios Nobel]
O que é
isto do Estabelecimento de Ensino?
[Duh?!?!?
Tanto que me apetece exclamar isto, bem alto, quando são as marmanjas das crias
com Iphone e Ipod e Icarago com app para tudo e mais alguma coisa – menos para
as coisas banais da vida - a perguntar-me isso. Andam aqueles pobres pais a
gastar dinheiro em livros para quê?]
Isto já não vai lá com dicionários da Porto
Editora. Vou ver se ainda se arranja o Dicionário da Academia das Ciências de
Lisboa.
Não há condições!
17 de julho de 2013
Como
é que uma mulher pode trabalhar sossegada se levanta os olhos e vê, na mega
televisão que lhe fica no campo de visão, as Suecas a correr atrás das
Italianas, as Italianas a correr atrás das Suecas, todas a correr atrás de uma
bola...
... este é um post da categoria do “estás aqui estás a apanhar...”
Apparat
16 de julho de 2013
Ouvir Apparat será sempre uma experiência
embrulhada em emoções contraditórias. Está impregnado de ti que mo deste a
conhecer e impregnado de perda porque foi a banda sonora dos dias que precederam
a partida da minha mãe. Talvez por isso signifique para mim a vida e os seus
extremos e aquilo que de entremeio se lhe queda e que sou eu.
Parece que esta altura o pede sempre para
ouvir. Só um pouquinho de cada vez. Todos os anos se inicia em mim esta espécie de contagem
decrescente e já não tento contraria-la. Faz parte. É como se, tendo presente
os dias e os momentos, pudesse tocar-me o ombro, o meu ombro de então, e me
pudesse dizer baixinho ao ouvido: “Tem calma. Vais conseguir sobreviver a isto”.
Farta de electrodomésticos com mau génio
13 de julho de 2013
O update semanal indica que a máquina de
lavar roupa já voltou a funcionar às mil maravilhas. Os homens das obras é que,
de tanto a tirarem e porem no sítio, acabaram por ligar mal os tubos.
Hoje, por coincidência também de folga – as minhas
folgas parecem estar condenadas – acordei, tardííííííssimo, para uma arca
congeladora tão cheia de gelo que não fechava. Tudo bem que a culpa foi nossa
que a deixámos mal fechada mas tenham dó. Não há nada mais estúpido na vida do
que estar de joelhos, com o secador de cabelo em riste, investindo contra
blocos de gelo na tentativa desesperada daquilo derreter mais depressa...
Na próxima folga vou para um Hotel...
... e agora vou ter com ela.
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Hoje jantamos fora, não vá o fogão lembrar-se...
Paul Theroux
“Disse-me um Adivinho” foi dos livros mais
divertidos e instrutivos que li nos últimos anos. Agora faço a viagem ao
contrário usando outros olhos para me guiarem. Tenho a impressão de que a aventura vai ser, também, para não mais esquecer.
A Gaiola Dourada
Será para ter medo? Muito medo? Mas tem a Rita Blanco...
por isso, se calhar... buenas noches!
Da condição feminina
Também a ler “Teresa e Isabel” de Violette
Leduc – a tal novela tanto tempo censurada e tão tardiamente publicada – ocorreu-me
ir ver em que ano foi publicado “Sexus” de Henry Miller. E qual o meu espanto –
ou não – quando a wikipedia me revela que foi publicado em Paris –
espantemo-nos com a cidade – em 1949. E espantemo-nos com a cidade porque,
cinco anos mais tarde, no mesmo local das luzes e da modernidade, Violette Leduc vê
recusada a publicação da sua novela. O porquê já sabemos. É um porquê que
continua com amarras bem presas nos dias de hoje.
Leduc era mulher. Primeiro ponto. Bastaria
apenas este.
Segundo ponto, Leduc era mulher e era
lésbica.
Terceiro ponto, Leduc era mulher, lésbica e falava
sem pudor e em pormenor da sexualidade e sensualidade femininas.
Quarto ponto, Leduc exultava o prazer
feminino. Como podia tal?
Quinto ponto – que deve ter feito muita
confusão na cabeça daqueles homens – Leduc exultava o prazer da mulher às mãos
de outra mulher.
Sexto ponto, Leduc falava da sua própria
experiência. A definitiva ousadia.
De Henry Miller diz-se que não há escritor
mais honesto. Talvez. Não sei. Tinha vinte anos e consegui ler metade de “Sexus”
– nunca mais lhe peguei. Talvez fosse o escritor mais honesto mas mesmo que não
fosse era meritório desse elogio pelo simples facto de ser homem e falar
despudoradamente do seu pénis murcho incapaz de perform – entre homens não há honestidade mais crua. E não está mal, não é o seu
talento que está em causa mas a forma como se fazia – e ainda se faz – a escolha
do que é bom e do que não vale a pena. Num mundo fálico, o editorial também, é
óbvio sobre quem recai a escolha e o escárnio com que se deita ao lixo o que,
para eles, não presta. Para com a mulher continuam a ter certa condescendência.
Sou levada a pensar que a novela de Leduc não
foi tanto censurada pelo seu conteúdo e pelas suas descrições mas por receio de
que a sua revelação levasse à libertação da consciência da mulher e à
reclamação dos seus direitos como ser sexual. É uma bela teoria da conspiração,
não?
Não sou feminista ferrenha mas tendo a ser
cada vez mais feminista. Sou-o por observação – salvo raras excepções - do
comportamento masculino no meu local de trabalho e pelo comportamento masculino
de uma forma geral. Sou-o também pela observação de um determinado
comportamento feminino mas isso são outros quinhentos. A verdade é que isso da igualdade, volta e meia, faz-me rir.
Do Policial Nórdido
Stieg Larsson colocou a fasquia muito alta. E
é chato quando queremos encontrar substitutos e não há quem lhe chegue aos
calcanhares.
Já li Camila Lackberg e Lars Kepler mas não
me convenceram. Agora estou a terminar Karin Fossum, a dita senhora do crime
Norueguês. Ainda não decidi se gosto ou não. É um romance estranho, o que me
leva a concluir que os noruegueses são estranhos, mas é, ainda assim, um
romance que está noutra dimensão; muito superior a Lackberg e a Kepler.
É um policial de ambientes - desolados – que
nos faz entranhar debaixo da pele das personagens e nos leva, contra a nossa
vontade, a criar empatia com elas; como se nos reconhecesemos um pouco iguais
no dano que a vida nos provocou e na constatação do facto de que a resiliência
não opera em todo o espectro da alma.
Da preguiça
Tenho a impressão de que ela, antes de sair para
o trabalho, me pediu para comprar Raid porque estávamos com uma invasão de
formigas... mas agora que me levantei não encontro formigas em lado nenhum, o
que significa que sonhei isso tudo. Tenho de lhe perguntar... sob risco de ser
gozada durante os próximos seis meses...
Apetecia-me sair e fazer qualquer coisa de
útil mas sempre que me levanto do sofá ele começa a chorar
convulsivamente. Não o posso abandonar à
sua triste agonia.
Ler, ver um filme, trabalhar no Photoshop...
pim pam pum... talvez dormir uma soneca.
Adenda: há formigas, há. Estavam todas escondidas dentro do açucareiro...
Adenda 2: se havia formigas no açucareiro... e se da primeira vez que tomei café não reparei - porque estava podre de sono - então... é mais do que provável que tenha bebido formigas...
Adenda 3 - se bebi... souberam-me a pato...
Coisas que me irritam profundamente:
9 de julho de 2013
-
a caneta com que escrevo melhor e com a qual mais gosto de escrever e que
defendo - à força de rosnar - das mãos alheias aka “senhores meus colegas”; cair, para castigo e por castigo, de bico no
chão.
Volta Paula, que estás perdoada
7 de julho de 2013
Não há nada de que mais
sintamos falta no Domingo à noite do que do Câmara Clara da Paula Moura
Pinheiro. O novo formato de magazine cultural com a Filomena Cautela não nos
convence e amiúde irrita-nos. Falta aquele savoir faire com extraordinário bom gosto
da equipa do Câmara Clara. Nem sempre os temas nos interessavam e nem sempre a
Paula Moura Pinheiro estava no seu melhor mas houve programas brilhantes.
Absolutamente brilhantes. E o grafismo das peças de reportagem valiam por tudo.
Não há nada igual e duvido que volte a haver.

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