Faço esta viagem há 17 anos. Entretanto mudaram os comboios,
melhoraram as condições das linhas, alteraram-se percursos, adicionaram-se
transbordos e, naturalmente, também eu mudei. Gosto de comboios. Gosto do tempo
de espera entre viagens. Gosto de estações. Gosto da pausa. Da sensação de
estar em trânsito. De ser de todo o lado e de parte alguma. Gosto. Gostava. Já
não sei.
De há oito anos a esta parte essa sensação sofreu mutações. O
estar em trânsito passou a acompanhar-se da urgência de chegar e do medo de
chegar, da angústia de não saber o que iria encontrar.
Oito anos depois do que foi o início do fim, cinco anos
depois do fim em concreto, ainda chego com essa sensação de angústia. Ainda me
apeio na estação com o coração embrulhado, com uma impressão de cansaço de que
não voltei a libertar-me, com desalento.
Depois passa. Depois chego a casa e estão os meus homens e
passa. Mas entre uma e outra curva do caminho que me trás a casa, há momentos
em que julgo ver-te ao fundo da rua, à minha espera para me ajudares a
transportar o saco, como fazias quando eu andava a estudar e vinha a casa de
fim-de-semana.
E tenho
saudades. Vir a casa torna as saudades mais acutilantes. Estás em todos os
lugares onde já não existes e eu tenho de lidar com isso.
Barcelona de casas antigas a adivinhar pátios interiores e segredos. Barcelona de candeeiros bruxuleantes projectando sombras ancestrais. Barcelona dos livros aprendida nas ruas, nas paredes, em todos os lugares; na sensação de percorrermos os passos de quem nunca existiu mas também nunca foi tão real.
Barcelona com o Mediterrâneo ao fundo reflectida nos teus olhos. E agarrar a tua mão e reencontrar entre os teus dedos o centro do meu equilíbrio. O centro do mundo. Todos os lugares da vida.
A poucos dias de regressar a casa engendro planos
para o amarrar à cama e evitar assim o “pronto para outra”. Não queremos “outra”.
Queremos sossego. Já vinha a calhar.
Há muito a dizer sobre Barcelona mas comecemos pelo fim.
Pelo último dia. Pelas horas antes do regresso. Pela Sagrada Família. Por
Gaudí.
Comecemos pelo momento em que entrando na Basílica fui
invadida por um sentimento de maravilha como há muito não sentia, por uma
experiência quase religiosa de constatação do génio humano, ou do divino… ou
das duas coisas interligadas, indissociáveis. Comecemos pelo assombro, pelo
silêncio que me tomou, pela perplexidade. Só alguém imensamente tocado pela fé
– em deus, no Homem, na Natureza… no que fosse – poderia ter erguido, feito
erguer, tamanha obra.
Gaudí quis construir um lugar de oração. Eu acho que fez um
pouco mais do que isso. Construiu um lugar que naturalmente nos faz erguer o
olhar e porque erguemos o olhar tornamo-nos grandes, elevados para lá da nossa
condição humana. Se isso é percepcionar deus, não sei. Mas se for, então,
efectivamente, não estamos sozinhos.
Não é uma lua-de-mel - essa fica para quando me
casar contigo, prepara-te - mas é um miminho que nos damos e uma lufada de ar
fresco que muito merecemos. Vamos para tomar café com os amigos e para
regressarmos com outro mundo no olhar. Adenda: Este vídeo também é um bom aperitivo. :)
Nunca sei até que ponto estes programas da MTV são reais ou apenas reality show mas, seja como for, o projecto “It gets better” serve um propósito muito importante e se esta é a forma de alcançar melhor e mais longe quem precisa dessa mão sobre o ombro e desse impulso para resistir, so be it.
O povo Português é o melhor povo do mundo, diz o Gaspar. É. Às
vezes um pouco tonho mas é um bom povo. Um povo trabalhador que só não faz mais
e melhor porque é mal dirigido, porque tem péssimos gestores – e estas são
conclusões acertadas de estudos antigos a que ninguém deu importância. É um
povo com uma capacidade de resistência acima da média. Às vezes resiste para lá
do aceitável mas é assim, de aguentar em silêncio, escondendo a miséria dentro de portas e sorrindo ainda que completamente destroçado; capaz de dar aos
outros o que a si lhe faz falta. Somo um bom povo, sim. Mas não somos povo para
sermos elogiados pela boca de quem nos fala como se fala a um cão. Pela boca de
quem profere “o povo Português é o melhor povo do mundo” como se dissesse “és o
cão mais lindo do dono”.
O povo aguenta para lá
do suportável – aguentou os Descobrimentos, aguentou uma ditadura, aguentou uma
guerra colonial, está a aguentar uma crise europeia – mas também fez derrubar a
monarquia, também fez derrubar um regime. O povo aguenta até ao momento em que
se cansa de aguentar. Porque o povo também tem orgulho, o povo também é
abespinhado. O povo sabe até onde a corda pode ser esticada e não aceita mais
do que isso. E eles sabem. Já tiveram provas. E têm medo. Sobretudo da sua
própria incompetência.
Os teus desejos são ordens e aqui se apresentam ao
mundo os bichos que reinam no quintal do teu pai lá no burgo. Serem meus por
afinidade não significa que os cinco gatos, dois cães, a ovelha, a cabra e o
burro que te peço todos os Natais fiquem esquecidos, ok? Porque não ficam.